segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A criação da APA do Pau-Brasil

Sobre a criação APA do Pau-Brasil e o seu Zoneamento: E como ficam as dunas do Peró?  

No final do mandato da Governadora Benedita da Silva, foi assinado o Decreto nº 31.346 de 06/07/2002, criando a Área de Proteção Ambiental do Pau-brasil. A meta era proteger praias, ilhas, vegetação de restinga e campos de Dunas do litoral de Cabo Frio e Armação dos Búzios.

A Unidade de Conservação Estadual estende-se do Canal Itajuru, em Cabo Frio, até o canto direito da Praia de Tucuns em Búzios. Estão incluídas na APA as praias Brava, Conchas, Peró, Caravelas, José Gonçalves e Tucuns, além das ilhas Comprida, Redonda, dos Papagaios, Dois Irmãos, Capões e Emerências. A faixa protegida é das ilhas até a Estrada Cabo Frio-Búzios (Estrada do Guriri).

A APA do Pau-brasil é considerada uma das 14 áreas do Brasil em diversidade de plantas. A ocorrência de pau-brasil, sítios arqueológicos, sítios históricos, espécies endêmicas, alagados, fenômeno de ressurgência marinha, o baixo índice pluviométrico e a formação geológica de campo de dunas, justificam sua proteção como patrimônio pré-histórico, histórico, paisagístico e ambiental.

Normalmente, passam-se anos entre a criação de uma área de proteção ambiental e a regulamentação de sua ocupação.  No caso da APA do Pau-brasil, este tempo foi de 5 meses, justificado pela pressa de proprietários de lotes no local em elaborar o plano de manejo, objetivando criar padrões de zoneamento e regulamentação do uso da terra, viabilizando implementar possíveis projetos de ocupação imobiliária.

Pelo Decreto n.º 32.578 de 31/12/2002, foi criado o Conselho Gestor da APA do Pau-brasil, de caráter consultivo, composto por representantes do poder público estadual e municipal, entidades classistas da hotelaria, ongs, associações de moradores e de proprietários, perfazendo um total de 27 membros. Boa parte das entidades nomeadas para o conselho, principalmente as ONGs e associações de moradores, tomam assento após a aprovação do referido plano de manejo, não tendo interferido na sua elaboração.

O INEA, antiga FEEMA, exerce a função de Presidência do Conselho Gestor, e entre seus membros mais ativos está a Associação de Proprietários da APA do Pau Brasil, representada por Sr. Ricardo Amaral, cujos interesses no Conselho são voltados para a implantação de loteamentos e empreendimentos imobiliários na área, em contradição com a função do Conselho que é a gestão dos recursos ambientais, demarcando claramente os paradigmas existentes na concepção e nos objetivos da criação e gestão da APA do Pau Brasil. O perfil do conselho se mostra, desde sua criação, extremamente engessado, deixando a desejar no que respeito à gestão participativa e democrática.

O objetivo anunciado pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Estado do Rio de Janeiro para a elaboração do Plano de Manejo (Decreto n.°32517 de 12/2002) foi o de preservar as áreas verdes que ainda não tinham sido até então atingidas por loteamentos, fixando as APP- Áreas de Preservação Permanente, como zonas intocáveis que deveriam ocupar 80% da APA.
Porém, o plano de manejo da APA do Pau-brasil, elaborado pela empresa Ambiental Engenharia e Consultoria, no valor de R$ 625 mil reais, e financiado por parte dos 19 proprietários que possuem imóvel na área, com intermediaçãoda ONG Viva Rio e supervisão da Feema, considerou a maior parte da área da APA como sendo Zonas de Ocupação Controlada (ZOC).

Mapa mostrando o Zoneamento da APA do Pau-Brasil
Zoneamento da APA
O zoneamento da Área de Proteção Ambiental do Pau-Brasil considerou cinco tipologias básicas de categorias de uso, Zona de Preservação da Vida Silvestre – ZPVS, Zona de Conservação da Vida Silvestre – ZCVS, Zona de Influência Ecológica – ZIE, Zona de Uso de Aqüiculturas – ZUAC, e Zona de Ocupação Controlada – ZOC, sendo que as ZOCs ocupam a maior parte da APA.

O zoneamento proposto pela empresa Ambiental Engenharia e Consultoria, que considerou a maior parte da praia do Peró como área passível de ocupação, foi aprovado pela FEEMA (Hoje INEA). A o mesmo órgão amebintal concedeu licença prévia para todo o complexo hoteleiro, e emitiu em março de 2008, a primeira licença de instalação para a construção do Club Méd Peró. Os protestos de boa parte do Conselho Gestor, da comunidade científica com estudo na área e a sociedade foram desconsiderados, bem como novas propostas de uso para a área. A primeira fase da elaboração do plano de manejo, o diagnóstico sócioambiental da referida área apontava para a importância da preservação permanente da vegetação de restinga e do campo de duna, no entanto o zoneamento respeitou outros interesses.

Devido razões desconhecidas o projeto do empreendimento hoteleiro se esfriou e as licenças de 2008 se expiraram. Em março de 2011 uma nova licença de instalação foi concedida pelo INEA com validade até 18 de fevereiro de 2013. Nesta licença o INEA libera a implementação do empreendimento hoteleiro Club Mediterrane, com 304 apartamentos, serviços e áreas de lazer, ocupando uma área total de 302.000m², grande parte sendo localizado justamente em área de restinga preservada. Tal licença foi renovada em 28 de dezembro de 2012, bem como a emissão de outras 7 licenças de instalação, permitindo que o empreendimento começasse suas obras no segundo semestre de 2013.

A despeito dos fortes indícios de que o zoneamento foi adaptado para permitir o ajuste de uma planta previamente elaborada pelo empreendedor (Não o contrário, como previsto pela Legislação Federal), e o grande apelo da sociedade civil organizada, professores pesquisadores, e ONGs da região para que o empreendimento não fosse implementado, os órgãos ambientais que deveriam garantir a proteção de áreas prioritárias para conservação insistem em liberar o loteamento de 4,5milhões de metros quadrados em pleno campo de dunas.

(O texto contém trechos do relatório "SOS Peró" elaborado pela SOS Mata Atlântica e protocolado pela ONG AMA Cabo Frio para Ministério Público Federal em 2008. Modificado em 2013 por Martim Moulton com consenso dos autores.) 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O PECSOL e as Dunas do Peró

As contradições do INEA: sobre a criação do Parque Estadual da Costa do Sol e a destruição das Dunas do Peró.


Em 18 de Abril de 2011 finalmente se concretizou a criação do Parque Estadual da Costa do Sol (PECSOL). Com objetivo de proteger praias, ilhas, lagoas, vegetação de restinga, fragmentos de mata-atlântica e campos de dunas o parque foi idealizado pelo Instituto Estadual do Ambiente (INEA) de forma inovadora, sendo o primeiro parque estadual com descontinuidade territorial no Brasil.


Mapa de localização do PECSOL e seus diferentes núcleos.
(Fonte:http://www.inea.rj.gov.br/unidades/costadosol.asp)


O PECSOL tem uma extensão de 9.840, 90 hectares contando todos seus fragmentos e abrange os municípios de Araruama, Armação dos Búzios, Arraial do Cabo, Cabo Frio, Saquarema e São Pedro da Aldeia, sendo ele agrupado em por quatro núcleos diferentes, dentre eles o Núcleo Pau-brasil. 

A criação deste parque certamente se torna um marco importantíssimo para a conservação destes ambientes costeiros tão ameaçados. A região de Cabo Frio e Búzios estão entre as áreas que mais sofrem com a urbanização desenfreada devido à crescente demanda turística e a forte pressão imobiliária. Entretanto, ao mesmo tempo, a demarcação de seus limites não poderiam ter sido mais polêmica.

Imagem de satélite com os limites do PECSOL, destacando o
Núcleo do Pau-Brasil e o campo de Dunas do Peró deixado de fora. 
Uma das maiores discussões se deu em torno da inclusão ou não do campo de dunas do Peró. Localizado no meio da APA do Pau-Brasil, o campo de dunas já estava nos planos de empreendedores que projetavam a construção um complexo hoteleiro de 4,5 milhões de metros quadrados. O mesmo INEA que criou o PECSOL (Quando ainda se chamava FEEMA), já havia concedido a licença prévia (LP) para o projeto, considerado por ambientalistas como uma séria ameaça para a diversidade biológica e geológica da área. O ambicioso projeto vai contra as políticas preservacionistas do estado, gerando uma enorme contradição dentro do INEA. Em dezembro de 2012, o mesmo órgão ambiental concedeu 7 licenças de instalação (LI) para o empreendimento, sendo uma delas para a construção de um loteamento de casas de luxo na beira do Mar e outra para iniciar a construção do Club Med Peró.

Cartaz do encontro científico idealizado pelo INEA em Cabo Frio.
Com uma cara "verde" o projeto milionário conseguiu o INEA e o antigo prefeito de Cabo Frio, Marquinhos Mendes, de que as dunas do Peró ficariam mais preservadas se fosse construído uma cidade em seu entorno. Entretanto, ainda não conseguiu convencer por completo a polução da região, nem as ONGs locais, e muito menos os cientistas que estudam a área. 

No dia 23 e 24 de Outubro será realizado o 1° Encontro Científico do Parque Estadual da Costa do Sol, onde diversos trabalhos científicos sobre a região serão expostos para o público. Lá, poderemos ver realmente a opinião de cientistas e da sociedade civil sobre as políticas ambientais do Instituto Estadual do Ambiente.

As inscrições para o evento é gratuita (veja figura ao lado), esperamos todo lá!



terça-feira, 24 de setembro de 2013

O mês de setembro e as mobilizações pela preservação do Peró

Capa da petição online retirada do site da Avaaz.org.
O mês de setembro de 2013 certamente será um marco para as lutas ambientais na Praia do Peró. 
Apesar do projeto do complexo hoteleiro ser antigo (2006),  e as batalhas de pesquisadores, ONG's, e cidadãos serem de longa data, foi no mês de setembro que uma série de acontecimentos importantes vieram a tona.    
Com as licenças de instalação em expedidas em 28 de Dezembro de 2012 (!), a empresa Costa Verde começou sua obras no segundo semestre de 2013. O início das obras despertou indignação daqueles que lutaram para que o empreendimento não fosse instalado no meio do campo de dunas do Peró.
No dia 1 de Setembro de 2013, uma pequena petição foi criada no intuito de conseguir assinaturas (https://secure.avaaz.org/po/petition/Parem_com_a_destruicao_das_dunas_do_Pero/) para que as autoridades responsáveis parassem com as obras até que órgãos ambientais se explicassem diante da população. A falta de informação sobre as mudanças ocorridas no projeto e o não pronunciamento, até então, de empresas como o Club Mediterrane sobre suas intensões dentro do projeto preocupava não só a população e como também as autoridades locais. Em 16 de Setembro, o Prefeito de Cabo Frio, Alair Correa, decidiu embargar as obras por "tempo indeterminado". As razões para o embargo foram mais políticas do que propriamente ambientais. Segundo o prefeito, as licenças de instalação teriam duas irregularidades que o fizeram decidir embargar as obras. Em meio a confusão gerada pelo embargo das obras, na noite do dia 21 um incêndio atingiu uma grande área de restinga destinado à construção do Club Med Peró.

Diante dos fatos ocorridos no mês de Setembro a mobilização social a favor da preservação das dunas do Peró cresce cada vez mais. Hoje, dia 24, a petição online atinge 2 mil assinaturas, número considerado bastante expressivo levando-se em conta o caracter local da questão.
O mês ainda não acabou e a luta deve se intensificar cada vez mais. No dia 29 (Domingo) às 10 horas da manhã uma manifestação está sendo programada na frente da estrada do empreendimento, a chamada é para todos!

Não somos contra o turismo na região, nem contra resorts, hoteis ou qualquer coisa do tipo. Somos sim contra a destruição de um dos maiores patrimônios naturais do estado do Rio de Janeiro. Somos a favor da preservação da vida no Peró. Que o turismo venha, mas venha com responsabilidade ambiental. Há muitas áreas para se construir hoteis por perto, áreas realmente degradadas e onde não há espécies endêmicas de fauna e flora, áreas que não são por lei Áreas de Proteção Ambiental. 


                       

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Uma semana após o embargo das obras, incêndio na restinga do Peró.                 Coincidência ou crime?

Registro do incêndio  (Foto: Aquiles Barreto)
No dia 16 de Setembro de 2013 muitos comemoraram a decisão do prefeito de Cabo Frio, Alair Corrêa, de embargar por tempo indeterminado as obras do Resort Peró. O empreendimento, que já tem em mãos as licenças de instalação concedidas pelo INEA (Instituto Estadual do Ambiente), prevê a construção de um complexo hoteleiro no meio do campo de dunas da Praia do Peró. Seis dias após o embargo, na noite de sábado (21/09), uma área de cerca de 250 mil m² de mata de restinga e vegetação de brejo foi vítima de um incêndio.

Estragos provocados pelo fogo  (Foto: Aquiles Barreto)
O incêndio deixou marcas fortes na paisagem. Na manhã do dia 22, o vereador de Cabo Frio, Aquiles Barreto, registrou em imagens a dimensão do estrago. A área afetada pelo incêndio era constituída principalmente por mata de restinga arbustiva densa e vegetação de Taboa (Típica de áreas de brejo), sendo habitat para diversas espécies de fauna e flora endêmicas do Rio de Janeiro, algumas que inclusive se encontram em risco de extinção.

A relação temporal dos fatos levanta sérias suspeitas acerca de um possível caráter criminoso do incêndio. As investigações já foram iniciadas e um boletim de ocorrência (n° 6300/2013) foi aberto pela própria empresa Costa Verde, responsável pela construção do empreendimento. O Laudo da polícia   (n°734/2013) , que deverá apontar as causas do incêndio, tem previsão para sair até o final do mês.

Historicamente, é raro que no nosso país incidentes como este tenham um responsável apontado depois de feitas as investigações. A destruição causada pelo fogo certamente será usada para reforçar o discurso daqueles que acreditam que se trata de uma área degradada sem valor ambiental, e que, por estar abandonada pelo governo, está sujeita a incidentes como este e deve ser destinada a construções de retorno financeiro imediato.

Ao contrário das notícias sobre o embargo das obras do Resort Peró, que tiveram bastante repercussão, tanto pela grande mídia quanto pelas redes sociais, a tragédia do fogo que atingiu a restinga do Peró não teve uma divulgação de peso. As notícias sobre o incêndio se resumem a postagens de fotos no facebook e blogs pontuais. Portanto, temos a obrigação de divulgar essa covardia!

Links relacionados:
http://blogprofessorhamilton.blogspot.com.br/2013/09/incendio-no-apa-do-pero.html


Jabuti encontrado morto após o incêndio  (Foto: Aquiles Barreto).