terça-feira, 11 de novembro de 2014

Em tempos de crise hídrica estamos cimentando nossos filtos d'água: as dunas!

Em tempos de crise hídrica estamos deixando cimentar um dos nossos mais preciosos filtros d'água que temos: nossas Dunas!!!

Sim, as dunas são reconhecidas mundo afora por seu valioso potencial em captar e filtrar a água da chuva, tendo importantes aquíferos de aguá da melhor qualidade possível.

A Holanda é um um bom exemplo disso, além das dunas protegerem boa parte do país de alagar, pois grande parte está abaixo do nível do mar, elas também são um importante reservatório de aguá e portanto são cuidadosamente protegidas.    
As mega dunas móveis do Peró e a Lagoa do Guriri.

No Peró não é diferente. Temos debaixo do campo de dunas um dos mais importantes reservatórios de água potável da região dos lagos, uma das regiões do estado com maior deficiência hídrica!

Não é difícil de perceber que debaixo das dunas do Peró tem tanta água. Atrás das dunas temos uma imensa área alagadiça de pântano e no reverso das dunas móveis temos a lagoa do Guriri. Em épocas de chuva, podemos ver a grande quantidade de poças que são formadas entre as dunas em função da subida do lençol freático. 

O projeto do mega empreendimento hoteleiro/residencial prevê em seus relatório de impacto ambiental que o arruamento e a construção de edificações ao longo dos 4,5 milhões de metros quadrados terá impactos irreversíveis na qualidade da água do aquífero subterrâneo do Peró. E as medidas de mitigação deste impacto? Não há.
Neste exato momento caminhões levam toneladas de areais das dunas e voltam com toneladas de saibro para construir as estradas, começando assim o processo de impermeabilização do solo. Depois virá o asfalto e as construções.

Não podemos deixar que acabem com uma dos mais importantes fontes de água potável da região!
  

Foto recente da destruição das dunas caminhos das máquinas feitos com saibro.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A destruição volta com tudo

E foi assim, do jeito que todos previam, que as obras voltaram...

O embargo da prefeitura de Cabo Frio foi retirado sem nenhum tipo de aviso prévio.

O INEA, que chegou a prometer uma área de proteção de 100 metros ao redor das dunas, tampouco.

Foto das máquinas voltando a remover areia das dunas em Outubro.

No último relatório do INEA nada foi dito a respeito dos limites de proteção das dunas, pelo contrário, o projeto original que afirmava que todas as edificações que seriam erguidas sobre palafitas para garantir o transporte de sedimentos das dunas foi modificado com consentimento do INEA. Com a desculpa de que se trata de uma área particular e que se deve velar os "direitos 

O ritmo das obras é mais rápido do que nuca. Dezenas de caminhões entrando e saindo do Peró com toneladas de areia removida das dunas. Máquinas removem a vegetação de restinga com extrema facilidade.

As alterações no projeto original são tantas que nem sequer sabemos direito quais foram. Se retiraram do projeto a construção sobre palafitas o que mais teriam alterado? 
Será que o acesso à praia será mesmo sobre passarelas respeitando as dunas frontais? 
Será mesmo que as dunas frontais não serão removidas para melhorar a vista das centenas de quartos que irão querer uma linda vista pro mar? 
Será que o viveiro será mesmo construído? 
Será mesmo que o centro de pesquisas será feito?

Ilustração de computador mostrando como seria a construção sob palafitas.

Antes de qualquer máquina derrubar uma árvore sequer e antes de qualquer caminhão levar embora um grão de areia, deveríamos ao menos ter uma nova AUDIÊNCIA PÚBLICA!!!




segunda-feira, 1 de setembro de 2014

"Vamos salvar 100% das dunas"


Quando iniciamos a petição online (Parem com a destuição das dunas do Peró_Avaaz) e logo atingimos 2 mil assinaturas em menos de um mês, recebi um email animador do pessoal do Avaaz.org falando que algo raríssimo havia acontecido. Representantes do empreendimento "Resort Peró" entraram em contato com a Avaaz.org pedindo para que fosse enviado meu e-mail, dizendo que queriam explicar melhor do que se tratava o tal projeto. Neste e-mail, uma pessoa ligada ao empreendimento falava de forma muito educada que havia um grande mal entendido e que o projeto iria preservar "preservar 100% das dunas".

Pela milésima vez comparei a planta do projeto com imagens aéreas e mapeamentos geomorfológicos da região e fiquei me perguntando... Será que eles sabem o que são dunas? Será que eu sei o que são dunas? Será que temos opiniões diferentes do que são dunas? O que são dunas afinal?



Imagem de satélite e a planta do projeto. Apesar de dizerem que cem por cento das dunas estariam sendo contempladas como área de preservação, no projeto fica evidente que apenas as dunas de maior expressão estarão nos planos dos empreendedores.
Realmente não sei qual a definição dos engenheiros, mas para nós geógrafos dunas são depósitos sedimentares de origem eólica, predominantemente formado por grãos de quartzo. Em outras palavras, são acumulações de areia trazidas pelo vento. Existem diferentes tipos de dunas, que se diferenciam de acordo com o tamanho, forma, tipo de cobertura vegetal (presente ou ausente) e com a sua movimentação (ou estabilidade).

Dunas costeiras, ou litorâneas, ocorrem em áreas onde grandes quantidades de sedimentos foram disponibilizados durante períodos de diminuição do nível do mar. Em praias onde essa disponibilidade de sedimentos é grande, campos de dunas de centenas de quilômetros e dezenas ou até centenas de metros podem se desenvolver. Porém, ao longo de um campo de dunas, depósitos eólicos menores também se desenvolvem, e também são por definição dunas (Protegidas por lei)!

No Peró, um extenso campo de dunas foi se desenvolvendo ao longo de milhares de anos. Em sua dissertação de mestrado Oliveira Filho (2010) fez um mapeamento geomorfológico da planície costeira do Peró, onde foram classificados quatro grandes tipos de dunas; dunas frontais paralelas à linha de costa, megadunas transgressivas no limite sudoeste do campo de dunas, dunas parabólicas distribuídas ao longo da planície de deflação e dunas menores com cobertura vegetal. O projeto "Resort Peró" delimita como área de proteção somente as dunas frontais, que atuam como uma importante barreira diminuindo a velocidade dos ventos alísios de Nordeste (NE) e protegendo a planície de eventuais ondas de tempestade, e as megadunas, que têm um apelo paisagístico por serem feições imponentes que se movimentam na direção NE-SO em função dos ventos constantes de NE.

Mapeamento geomorfológico feito por Oliveira Filho (2010), mostrando a diversidade das feições de dunas e vegetação de restinga e áreas de planícies de inundação (vegetação de brejo).

A área mais plana do campo de dunas, onde o vento atua remobilizando os sedimentos arenosos na direção predominante (no caso de NE-SO) é chamada de planície de deflação. No Peró, essa planície de deflação se situa entre as dunas frontais e as megadunas, justamente onde grande parte das construções do projeto estão localizadas. Essa planície além de ser uma importante área de transição de sedimentos, contém diversas feições de dunas (que variam de 0.5m até 5m de altura) e também fragmentos de vegetação de restinga.

Recentemente, um estudo feito por Muehe et al. (2010), onde armadilhas de sedimentos foram distribuídas ao longo da planície de deflação e analisadas num período de 1 ano, aponta que o campo de dunas do Peró não apresenta no momento atual uma grande quantidade de transporte de sedimentos ao longo da planície. A movimentação das megadunas transversais é possivelmente alimentada pelo seu próprio aponte sedimentar. Entretanto, este mesmo estudo aponta que o sistema de dunas do Peró apresenta um equilíbrio ambiental altamente sensível, e que pequenas oscilações climáticas tendendo para um clima mais seco já poderiam representar uma grande mudança no balanço morfo-sedimentar do campo de dunas, diminuindo a cobertura vegetal e reativando as dunas hoje estabilizadas.

Uma possível reativação do campo de dunas não está condicionada somente a uma eventual oscilação climática que levaria a um período de menor pluviosidade e diminuição da vegetação, já que o homem é um dos principais responsáveis pela diminuição da vegetação fixadora de dunas (Protegida por lei), removendo-a com maior rapidez do que qualquer alteração climática. O projeto do "Resort Peró" implica na retirada de dezenas de hectares de vegetação fixadora de dunas ao longo da planície de deflação, além do aplanamento de áreas que independentemente do tamanho, tipo, forma ou cobertura vegetal, são também dunas. Esse processo já foi iniciado no ano de 2013 e foi interrompido graças a um embargo.

Desde de a data do embargo fica claro movimentação da areia em diversos pontos da planície ocasionados pela reativação de áreas de dunas em função da remoção de parte da vegetação e do aplanamento de pequenas áreas de dunas. Em Outubro (de 2014) as obras do "Resort Peró" prometem ser reiniciadas, agravando cada vez mais o cenário de destruição e muito possivelmente alterando o equilíbrio deste frágil ambiente.  

Evidencia do aplanamento de áreas de dunas e remoção da cobertura vegetal nos poucos meses em que as máquinas trabalharam no Peró, o registro fotográfico não deixa dúvidas da destruição na planície de deflação.